Homenagem dupla

Segue uma crônica que eu adoro, de um personagem que eu venho comentando com frequência nos últimos tempos, em homenagem ao meu amigo paranóico, e, como não podia deixar de ser, também ao meu amigo gaúcho. Cada um deles sabe bem que estou me referindo a eles…

Te cuida, tchê (Luiz Fernando Veríssimo)

Lindaura, a recepcionista do analista de Bagé (segundo ele, “uma recepcionista eclética, pois recebe e dá”), faz o possível para preveni-lo sobre os pacientes novos antes de entrarem no consultório, pois, como diz o analista, “se me entra um arreganhado, já recebo a tapa”. Lindaura deixa um pedacinho de veludo vermelho ao alcance do paciente na sala de espera. Depois escreve na sua ficha: “Não ligou para o veludo” ou “Passou a mão e começou a babar” ou “Botou na frente e foi ver no espelho se ficava bem”. Na ficha daquele cliente novo, de Não- me-toque, ela escrevera: “Viu o pedacinho de veludo e recuou
horrorizado.” Era obviamente um paranóico.

– Te deita no divã, tchê – disse o analista de Bagé.
– Pra quê? – quis saber o paciente, desconfiado.
– Oigalê bicho bem xucro – disse o analista co m uma risada agradável, enquanto torcia o braço do outro e obrigava-o a se deitar.

O paciente ficou se segurando sobre o pelego que cobria o divã, para evitar que arrancassem sua roupa. O analista sentou no seu banquinho e pegou a cuia.

Ofereceu:
– Um mate? – O que é que você quer dizer com isso? O analista de Bagé passou a cuia para o outro, que olhou para a ponta da bomba com apreensão.
– Pode tomar que os micróbios são de casa – disse o analista, mas o paciente devolveu a cuia. O analista continuou:
– Pues, qual é o problema?
– Eu sabia. Já andaram espalhando que eu tenho problema.
– Se o amigo está aqui é porque tem um problema. Já vi que pelo mate não é.
– Pare com esse tom condescendente!
O analista de Bagé fez força para se controlar. Um dia antes perdera a paciência e atirara um masoquista contra a parede. O masoquista não reclamara, mas com o impacto se quebrara o seu Freud entalhado em imbuia. O outro continuou:

– Todo mundo me persegue.
– Não é verdade.
– Ninguém acredita em mim.
– Eu acredito.
– Você só diz isso pra me agradar.
– Eu não estou querendo te agradar.
– Por que não? Por que não?

Meia hora depois o analista de Bagé, com argumentos razoáveis, e com a ameaça de atirar a escarradeira na sua cabeça, convencera o paciente a abandonar sua mania de perseguição. Ninguém o estava perseguindo. Era pura fantasia.
– E o jacaré embaixo da cama?
– Não tem jacaré. Jacaré gosta de banhado. A tua cama fica em lugar seco?
– Fica.
– Pois então.

Ele devia sair dali convencido que ninguém nem nada estava contra ele. Devia se esforçar para levar uma vida normal.
– Não sei se vou conseguir…
– Vai.
– Como é que você sabe?
– Porque eu vou estar sempre atrás de ti, tchê . Te cuidando. De dia e de noite. A menor recaída na paranóia, ó…
E o analista de Bagé fez o gesto de quem acerta um cutelaço na nuca.

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6 comentários sobre “Homenagem dupla

  1. Chrises

    o que você quiz dizer com este post. Todos já sabem do meu problema? Agora não vou poder mais sair à rua que vão ficar olhando de um jeito mais estranho do que já olham. E o que eu digo para as vozes se elas lerem este post. Elas não vão parar de atormentar. Elas já estão perguntando porque eu fui citado antes do gaúcho no texto. É alguma espécie de sinal? Os primeiros serão os últimos é isso. Agora já não tenho nenhum valor.

    E porque o Guilherme não diz nada sobre isso? O que ele sabe que não pode me contar? Tenho certeza que vocês (ele, o gaúcho e você) não vão parar por aqui. O que mais estão planejando? Tenho certeza que vocês acham desmedida esta minha aflição. Ninguém acredita mesmo em mim. Agora vou ter que ler todos os dias todos os posts… o resto da vida.

  2. Senhor Samuel,

    Como neófito em blogs, só mesmo o alto grau de paranóia para fazê-lo pensar que eu me referia ao senhor. Afinal, estamos travando conhecimento hoje, e este post é em homenagem a dois grandes amigos meus. O gaúcho, não tinha como errar, eu sei é óbvio. Agora sobre o paranóico, como pista de quem seja, para você que está chegando agora, eu posso dizer que se trata de um amigo meu que, apesar de queridíssimo amigo, sofre deste e de outro mal, (dos por mim diagnosticados): ADD…

    Creio ter ajudado no seu entendimento… qualquer dúvida, estou à sua disposição no meu consultório virtual.

    Dra. Mazzola

  3. Dra. Mazzola

    Consultório virtual? Na rede? Para todo mundo saber do meu problema?
    Não, nem pensar. Um monte de pessoas vai ficar de olho…
    Já notei que tem gente nova entre os comentaristas. É perigoso.
    Acho melhor bloquear os meus comentáriso com senha.
    Está todo mundo querendo me perseguir. As vozes me previniram sobre algumas pessoas. E que história é essa de outro paranóico? Nem pra paranóico de blog eu tenho mais serventia. Agora até ele vai me perseguir.
    Pelo menos poderemos trocar idéias sobre as formas de perseguição e mecanismos de defesa. Revele logo quem é ele. Preciso saber… dividir angústias.

  4. KKKKK

    Grande crônica!

    Mas que coisa maluca é essa de paranóia. Acreditar em algo que não existe é questão de fé. Mas fé em quê? Coisas que nos possam fazer mal, ou acreditar que se cometermos um pecado, morreremos queimados no inferno? Isto seria a maior paranóia que a humanidade já inventou. Por essas e outras, não acredito em paranóia….. Agora teu amigo paranóico, realmente deve ter um problema muito sério. Se precisar de indicação de psiquiatras, psicanalistas ou psicólogos, tenho uma lista grande. Realmente, alguém com TDHA e paranóia não deve ter a vida muito fácil. Se quiser podemos montar um grupo de discussão para podermos ajudá-lo. Desde já, me prontifico a oferecer minha singela ajuda! Sorte para nosso amigo paranóico!

  5. Gente!!
    Esse blog acabou de mudar de casa e já está um fervo..
    Adorei o blog, adorei o nome do blog e gosto muito da dona do blog. Um pouco doidinha.. mas quem é normal afinal?
    Outra coisa: Eu não tenho a menor idéia de quem seja a pessoa que até agora não escreveu mas acho que também desconsideraria tal ser …. imperdoável!
    Agora me ocorreu uma preocupação: Temos um amigo preocupadíssimo com o risco de a polícia invadir seu mocó… deu algumas desculpas como o blog mas o fato é que … será que ele tem em seu mocó experiências bizarras para diagnóstico de febre amarela da Tasmânia? tuberculose em hienas? ou outras doenças do século XXII que não passam agora na minha pobre e ingênua mente?

  6. Cara Dra. Mazzola,

    agora que estou melhor do meu surto tenho de reconhecer a sua dedicação e agradecer o oferecimento de ajuda. Não sei o que motivou esta última descompensação. Talvez a sobrecarga de trabalho. Ou quem sabe o medicamento fora de validade que, inadvertidamente, a minha querida Peggy trouxe do postão do INAMPS (Instituto Nacional de Amparo aos Membros Paranóicos Seniores). Aqui em Norwich a chegada do outono traz períodos de muita melancolia. Estou finalizando um livro de poemas sobre os cânticos de abades cistercienses, que deverá ser lançado ainda este ano. Por enquanto o livro tem apenas o nome em galego: Filias e fobias: monxes de Cister. Dedico esta pequena estrofe a tão gentil dama (traduzi para o português porque não gostaria de constrangê-la pela falta de compreensão do galego medieval):

    A imagem na cruz não consola,
    os desvalidos que clamam por piedade.
    Assim como a piedade do clamor desvalido,
    o consolo da cruz é imaginário.

    Recomendações a William,

    PS: com a falta de tempo não tenho entrado no blog dele.
    Tenho certeza que deve ter muita novidade. Vou verificar no fim de semana.

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